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Depois de esperar que o jovem ficasse sozinho, a gata branca aproximou‑se da cadeira de rodas e parou a poucos passos dela. Sima tentava capturar o olhar do rapaz, mas ele olhava como se visse através dela…

Depois de esperar que o jovem ficasse sozinho, a gata branca aproximou‑se da cadeira de rodas e parou a poucos passos dela. Sima tentava capturar o olhar do rapaz, mas ele olhava como se visse através dela…
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Depois de esperar que o jovem ficasse sozinho, a gata branca aproximou‑se da cadeira de rodas e parou a poucos passos dela. Sima tentava capturar o olhar do rapaz, mas ele olhava como se visse através dela…

O Anjo observava de longe. Em silêncio, com as asas brancas cruzadas atrás das costas. Ele tinha a missão de pedir ajuda à lendária curandeira… Mas como aproximar‑se daquela cujo nome se tornara lenda?

— Guardião, o tempo do meu descanso está chegando ao fim — disse a gata branca, cansada. — O que te traz até mim?

O Anjo estremeceu ao ouvir a voz da curandeira e percebeu que sua presença na clareira já havia sido revelada há muito tempo. Ele abriu as asas, bateu nelas suavemente e pousou a uma distância respeitosa daquela cujo repouso ousara perturbar.

— Peço perdão por ter interrompido seu sono, respeitável Serafim! — O Anjo abaixou o olhar, sem coragem de encarar a lenda. — Para mim é uma grande honra…

— Guardião, o que aconteceu? — interrompeu Sima, puxando o rabo felpudo com desagrado. — Sinto em você uma inquietação…

O Anjo ergueu os olhos e, ao cruzar o olhar penetrante e azul, involuntariamente deu um passo para trás. A curandeira lendária não só sabia curar corpos, como também sentir as emoções dos outros…

Até esse dia ele não tivera oportunidade de se comunicar com curandeiros e temia acidentalmente ferir a bela gata branca com uma palavra infeliz.

— Fui enviado pelo Supremo Guardião com um pedido de ajuda — disse o Anjo, escolhendo as palavras com cuidado. — Meu protegido precisa de um curandeiro, e o Supremo disse que, neste caso, só você pode ajudar.

— Eu tenho seis protegidos…

Sima fechou os olhos com cansaço e descansou a graciosa cabeça sobre as patas da frente. Ela sentia fadiga.

Parecia que o exaustão envolvera não apenas o corpo, mas também a alma, impedindo‑a de respirar fundo. Suas forças gradualmente a deixavam, e logo ela já não conseguiria curar pessoas. A razão era a saudade de seu humano, com quem não a deixaram ficar. Na memória surgiam a voz carinhosa e as mãos ternas…

«Simotchka!»

Quanto tempo se passara desde aquele dia distante? Cinquenta anos terrenos… Quem curaria sua própria alma?

— Em que posso ajudar? — perguntou Sima, sem abrir os olhos.

— Cometi um erro, e meu protegido sofreu gravemente em um acidente de carro — a culpa soou na voz do Anjo. — Ele precisa de cura — tanto física quanto emocional…

— Mostre o caminho — Sima levantou‑se e alongou o corpo com graça. — Vamos ver como posso ajudar seu protegido…

Sima se escondeu debaixo de um arbusto de lilás no parque do centro de reabilitação. Há vários dias observava o novo protegido, por quem o Supremo Guardião havia pedido ajuda.

Era um rapaz de dezoito anos, de corpo magro. O vento da primavera brincava com seus cabelos claros, mas o jovem parecia não sentir nada…

Ele estava sentado na cadeira de rodas, com as mãos sobre os joelhos e o olhar fixo em um ponto. Podia ficar horas imóvel, sem perceber nada ao redor.

O que mais impressionou Sima foi a conexão que sentiu com esse jovem desde o primeiro encontro. Ela tentava resistir, mas era irresistivelmente atraída por ele.

Por cinquenta anos terrenos ela seguiu rigorosamente a regra — não se apegar aos protegidos, pois após a cura é sempre doloroso partir. Mas agora tudo era diferente…

Depois de esperar que o jovem ficasse sozinho, a gata branca saiu de seu esconderijo. Aproximou‑se da cadeira de rodas e parou a alguns passos.

Sima tentou capturar seu olhar, mas ele olhava como se visse através dela. A gatinha fechou os olhos, evocando na memória a imagem de seu humano, sua dona, a sensação de sua mão carinhosa nas costas.

Com um ronronar alto, abriu os olhos e suavemente pulou no colo do jovem.

A curandeira percebeu como as pernas do rapaz doíam e queimavam, e começou a massageá‑las delicadamente com suas patas macias, sem parar o suave e calmante ronronar. Trabalhou concentrada e persistentemente, como se entrelaçasse em cada toque um fio invisível de calor. A energia viva, fluindo através de suas almofadinhas, penetrava nas áreas lesionadas do corpo, aliviando espasmos e devolvendo a sensibilidade perdida. Sima sentia claramente suas próprias forças deixando lentamente seu corpo e passando para o jovem enfraquecido, mas não tentou interromper o fluxo — esse era seu dom e seu destino.

Quando passos de uma enfermeira soaram no corredor, ela se escondeu sob um banco e depois seguiu imperceptivelmente a maca. Passou a noite ao lado dele, aninhada perto de sua cabeça em um nó apertado, direcionando calor à sua mente e tocando com cuidado o que estava escondido mais profundamente que o corpo. Ao amanhecer, a curandeira deixou o hospital — precisava restaurar as forças gastas, e isso só podia ser feito no bosque sagrado. Lançando o último olhar ao jovem adormecido, a gata branca se dissolveu nos raios dourados da manhã…

— Ele está muito melhor! — exclamou o Anjo, pousando na grama ao lado de Sima. — A sensibilidade nas pernas está voltando! Sou infinitamente grato a você, Serafima!

— Enquanto houver dor em sua alma, o corpo não pode se curar completamente — respondeu Sima, em voz baixa. — Ainda será necessária muita energia…

— Eu acredito que você vai conseguir, e Matvey voltará a ser ele mesmo! — disse o Anjo com entusiasmo, olhando para ela com admiração sincera. — Você ajudou tantas pessoas que se tornou uma verdadeira lenda.

— Matvey? — a gatinha abriu os olhos. — Esse é o nome dele entre os humanos?

— Sim — acenou o Anjo, um pouco constrangido sob seu olhar atento.

— Mais quatro sessões e ele estará totalmente recuperado — disse Sima, esticando‑se sobre o lado direito.

Em três dias ela conseguiu parcialmente restaurar as forças gastas e completar o tratamento de dois outros protegidos. Agora toda sua atenção estava voltada a Matvey. Observando‑o, ela notou algo estranho: nenhum parente apareceu ao lado de sua cama.

— Onde estão seus familiares? Por que ele está sozinho?

— Ele saiu de casa depois de uma briga com o pai — confessou o Anjo suavemente. — Eu não consegui impedir.

— A família não sabe onde ele está? — Sima perguntou. — Por que você não lhes dá um sinal?

— Sou um guardião, e nós só podemos proteger, não interferir — o Anjo bateu as asas.

— Regras são sua ocupação favorita — a gatinha fechou os olhos cansada, indicando que o assunto estava encerrado.

Sima estava sentada no parapeito da janela no quarto, observando como a enfermeira alimentava Matvey. Após duas novas sessões, o jovem começou a reagir a sons. Quando a música de Mozart soou no rádio, suas pálpebras tremeram e seus lábios se moveram levemente. Claramente, ele tinha afinidade com a música clássica. Isso despertou em Sima lembranças há muito esquecidas: sua dona também amava essa música e até a compunha. A gatinha apertou os olhos, afastando as memórias doloridas, mas na cabeça ainda ecoou a voz suave: «Simotchka!» O coração apertou‑se dolorosamente. Garantindo‑se de que a enfermeira havia saído, Sima pulou para baixo e se acomodou sobre o peito do jovem. Sob suas patas batia um coração forte. Ronronando, ela expulsava os últimos resquícios de dor de seus pulmões. E então a mão de Matvey pousou em suas costas, acariciando‑a lentamente. Seus olhos estavam fechados, mas o toque era vivo. Sima sabia: a sessão final lhe devolveria a consciência por completo.

— Simotchka! — disse docemente uma jovem, acariciando a gata branca. — Estou tão feliz por você ter entrado na minha vida! Você me trouxe tanta felicidade!

Sima ronronou, pressionando o focinho à mão dela. Entre tantos protegidos, apenas Natasha conseguiu tocar aquela parte da sua alma que a curandeira sempre escondia. Quando Sima entrou em sua vida, a jovem lutava contra uma doença grave. Os guardiões a chamavam de especial, por isso confiaram Serafima a ela. Lutaram juntas, e a cada dia o vínculo se aprofundava. Mas não é permitido aos curandeiros se apegar. Após a cura, eles desaparecem. Para Sima era insuportável partir, e ela implorou aos Supremos Guardiões que ao menos a deixassem ficar alguns anos — apenas como um animal de estimação. Mas ela recebeu uma negativa.

— Você verá, eu certamente escreverei um balé inteiro em sua honra! — Natasha prometeu solenemente. — Meu Simotchka!

Sima abriu os olhos na clareira — suas forças estavam quase esgotadas, e o Anjo não havia chegado. Respirar era difícil, mas a última sessão era necessária.

Ela sem hesitar ofereceu o resto de sua energia, sentindo a vida deixar seu corpo. O mais importante era que Matvey viveria plenamente. Quando o jovem abriu os olhos e olhou para ela com compreensão, sua voz soou com gratidão:

— Obrigado, querida! Você me salvou e eu nunca vou esquecer isso!

Sima estava deitada ao lado dele, pressionada à sua mão. Ela não tinha forças para levantar a cabeça. No quarto entraram a enfermeira e uma senhora idosa.

— Matvey! Eu te encontrei! — exclamou ela.

— Vovó! — respondeu o jovem.

A enfermeira disse animada: — A famosa Natalya Ignatovna Mayskaya, autora do lendário balé “Serafima”, é a avó do nosso paciente!

Natalya Ignatovna decidiu levar o neto para casa, prometendo que ele poderia estudar música, e não direito. Matvey insistiu que não iria sozinho — ele queria levar a gata Sima com ele.

— Simotchka… — sussurrou a avó.

Sima acordou entre nuvens e viu um arco‑íris deslumbrante.

— Aqui está o fim… — ela murmurou.

Ao lado apareceu o Anjo. Ele disse que seu sacrifício não ficaria sem recompensa e sugeriu um caminho alternativo. Neste momento, ela ouviu uma voz familiar: «Simotchka! Simotchka, acorde, minha gatinha!» Era Natasha. Matvey acabou sendo o seu neto. O destino os uniu novamente.

— Vá até ela, ela te espera — disse o Anjo. — Vinte e um anos terrenos…

Desde então se passaram cinco anos. Sima viveu ao lado de Natalya Ignatovna, acompanhando‑a nas turnês. Hoje eles estavam sentados na cabine fechada no primeiro concerto solo de Matvey. Ele escolheu o órgão, e o público aplaudia entusiasmado. A mão da dona acariciava suavemente as costas brancas.

— Esta é a parte de “Serafima” — Natalya Ignatovna sorriu. — Eu prometi escrever um balé em sua homenagem.

Sima ronronou baixinho ouvindo os sons majestosos. Ela sabia: sua jornada foi difícil, mas cada momento vivido ao lado daqueles que ela salvou valeu todos os desafios.

Minha curandeira. Minha Simotchka.

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Prev O bebê chorou por três dias seguidos e quase não dormiu. Os médicos insistiam que era apenas cólica e prescreveram remédios, mas o choro não parava.
Next — Não entendo por que o dono as chamou de aberrações. Normalmente as pessoas não têm problema em desembolsar por aquelas. Vou mostrar o lugar agora, vamos — e eles arrastaram a caixa para a passagem subterrânea…

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