A vida há muito deixou de alegrar Ludmila Vassilyevna. Seja aquele tal boomerangue maldito que lhe devolvia os erros da juventude, seja o destino decidido a zombar dela — quem sabe. Mas com os anos tornou-se realmente difícil. A pensão — uma ninharia, os preços crescem como se competissem entre si, e não havia ninguém para pedir ajuda. No mundo inteiro, ela estava sozinha.
Assim aconteceu. Quando ainda podia ter filhos — não quis. E quando quis — já era tarde. O marido suspirou, suspirou e foi embora com outra. E nela ficou a raiva — dele, de si mesma, de todo o mundo.
Ela viveu com essa mágoa. Mal percebeu — eis que a velhice chegou. E nem havia motivo para fingir vigor. Talvez alguém, aos oitenta, ainda se sinta fresca como uma margarida, mas isso não era para ela.
Para completar, no outono ela foi demitida de seu último emprego. Adoeceu seriamente. E quem precisa de uma faxineira doente? Para seu lugar encontraram rapidamente uma jovem e ágil.
— E agora o que fazer? — perguntou Ludmila Vassilyevna ao reflexo no espelho.
O reflexo, claro, silenciou. Mas então alguém tocou à porta. Ela olhou pelo olho mágico.
— Manka, a vizinha! E o que ela quer agora?
Noutro dia ela não teria atendido a amante local de uma bebedeira. Mas naquele dia sua alma estava particularmente vazia. Queria conversar com alguém.
— Lyudochka, que bom que você está em casa! — Manka claramente não esperava que a atendessem. — Por que está tão sombria?
Ludmila Vassilyevna cheirou — o cheiro habitual da “festa eterna” ainda não se fazia presente.
— Entre, Masha, vamos tomar chá. Tenho também algo um pouco mais forte. Guardado para um dia difícil. Mas parece que ele já chegou — ofereceu a dona inesperadamente.
Manka sorriu com a boca sem alguns dentes, acenou e entrou no apartamento antes que mudassem de ideia.
— Lyudochka, não fique triste. Foi demitida — azar deles! Grande alegria — carregar baldes! Eu tenho uma proposta de negócio pra você — a língua de Manka não enrolava, embora seu “fundo para o dia difícil” já estivesse quase no fim.
— Que proposta? — Ludmila Vassilyevna ficou em alerta.
Falavam de Manka no pátio. Diziam que ela nem sequer trabalhava.
“As pessoas dizem que ela não trabalha nada.”
— Em que vive? Vai mendigar no metrô! E ainda sem vergonha!
Ludmila Vassilyevna não acreditava muito nas fofocas. Achava que não se ganha muito no batente. E qual seria o seu interesse na vida alheia?
Se alguém dá — significa que sabe pedir. E a aparência de Manka ajudava: pequena, magra, olhos azuis de misericórdia. Embora mais nova que Ludmila Vassilyevna, bastava vestir um casaco escuro gasto e um lenço no cabelo grisalho — e parecia uma típica vovozinha, uma margarida de Deus. Ludmila Vassilyevna mesma não poderia fazer isso — seria envergonhada.
— Não se assuste, Lyudochka. Não estou oferecendo nada ilegal. Sei o que as pessoas falam sobre mim — continuou Manka.
Ludmila Vassilyevna suspirou aliviada, mas cedo demais.
— Vai ter que ficar parada, claro. Mas não com a mão estendida — com uma caixa.
— Uma coisa não vale a outra! — resmungou ela.
— Espere antes de recusar. A caixa não estará vazia. Dentro — filhotes de cachorro ou de gato. Um anúncio ao lado: você arrecada para alimentar os animais, ajuda o abrigo. Tudo cultural.
— E de onde eu tiro os filhotes? O abrigo dá? — ela se interessou.
— Bem, abrigo ou não… Isso já não é da sua conta. Eles vão aparecer. Você precisa ficar lá, segurar o anúncio e recolher dinheiro.
— E só isso?
— É! Concorda? Eu te ensino tudo. Vai dar um bom extra para sua pensão!
Essas palavras dissiparam as dúvidas. Ludmila Vassilyevna acenou:
— Por que não tentar?
Os filhotes sentiram imediatamente: seus donos não os queriam. Sua aparição não trouxe alegria. A dona resmungou:
— Sonka, que peste você é! Engravidou, teve filhotes, e agora o que eu faço com essas aberrações?! Ao menos fossem bonitos, mas são vira‑latas horríveis! Só servem para afogar!
O marido parecia mais brando:
— Olha, não precisa afogar… Podem ficar mais bonitinhos quando crescerem. Vamos arrumar um lar. São só três.
— Se é tão esperto, Vovka, você mesmo arrume! Eu não tenho tempo nem vontade!
— Eu vou arrumar! — prometeu ele.
Mas como se viu, isso foi em vão. Ninguém queria aqueles filhotes sem raça, pretos e ruivos, com testa larga.
— São metade pastores! — Vova insistia com conhecidos.
— Pois é justamente isso que é ruim. Quando crescerem virão cães fortes. Quem vai querer um desses num apartamento? Precisa de espaço, comida, e sair para passear no tempo todo. Isso não é coisinha de bolso.
Os filhotes cresciam, os dias passavam, e a dona ficava cada vez mais irritada:
— Vovka, eles já têm quase dois meses! Resolva! Quanto mais velhos, mais difícil de se livrar!
E então, numa chuvosa noite de novembro, o destino pareceu piscar para Vovka. Ele saiu do metrô pensativo, quase tropeçou numa grande caixa.
— Olha por onde anda! Você quase pisou nos animaizinhos! — exclamou uma senhorinha magra sob o beiral. — Melhor que doasse para alimentar os cachorrinhos.
Vovka se desculpou, olhou dentro da caixa. Dois tufos peludos se mexiam vagarosamente lá dentro. Ao lado — um pedaço de papelão com uma inscrição em marcador preto:
“Ajude o abrigo. Doe para alimentar os animais. Você nos ajuda — nós ajudamos eles!”
Sem palavras.
Ele tinha algumas notas e trocados no bolso. Jogou o dinheiro no recipiente e de repente perguntou:
— Você tem um abrigo?
A senhorinha hesitou, mas acenou.
— Você poderia arrumar um lar para meus três filhotes? Eu pago!
Ela relaxou visivelmente:
— Claro, por que não ajudar? Traga. Quantos são?
— Três.
Ela fez as contas:
— Então traga um pouco de dinheiro pelos três. Três mil dão e sobram. Não é para mim — é para eles! — ela apontou para a caixa.
— Obrigado! — Vovka se alegrou. — Minha esposa vai ficar tão feliz!
Na manhã seguinte, Ludmila Vassilyevna chegou ao metrô. Manka já a esperava. Na frente dela — uma grande caixa, debaixo do braço — o cartaz.
— Bom, não está atrasada — elogiou Manka, mudando inesperadamente para o “tu”, e tomou um gole da garrafa no saco branco. — Queres um gole para aquecer?
Ludmila Vassilyevna balançou a cabeça em negação.
— Ok. Vamos ao trabalho. Aqui está a nova remessa. Três. Dois machos e uma fêmea. Idade perfeita! Lindezinhos, pequeninos. Não entendo por que o dono os chamou de aberrações. Perfeitos! As pessoas normalmente desembolsam sem perguntas. Agora te mostro o lugar, vamos…
Elas carregaram a caixa para a passagem subterrânea. Manka encostou o cartaz na parede, colocou ao lado o recipiente — a “caixa registradora”, como ela disse — e já ia embora.
— Masha, espera — Ludmila Vassilyevna a deteve. — E como vamos alimentá‑los? Dar água? E se eles precisarem fazer suas necessidades?
— Lyuda, o que é, uma santa? — Manka resmungou. — Como alimentar? Ganhamos dinheiro com eles. Se ainda tivermos que gastar, de que nos serve?
— Mas eles vão morrer!
— Então que morram! Outros aparecerão. Se não aparecerem — pegamos em lixeiras. Há muitos “caras de negócios” por aí. Eles mesmos trazem e ainda pagam só para se livrar.
That’s enough. I’ll continue in the next message if you want.
As horas passavam lentamente. De vez em quando, moedas e notas caíam na “caixa”, e a alma de Ludmila Vassilyevna ficava cada vez mais pesada.
Depois de algumas horas, ela não aguentou mais: colocou o dinheiro recolhido no bolso, cobriu a caixa com o cartaz e foi até a barraca mais próxima.
— Três pastéis de carne, por favor.
De volta, tirou da bolsa uma garrafa térmica com chá sem açúcar, despejou no recipiente da “caixa” e quebrou os pastéis quentes em pedaços.
— Comam, pequenos. Não é comida de cachorro, claro, mas não há outra. Melhor algo do que nada. E preciso trocar os jornais de baixo de vocês…
Foi interrompida por uma voz indignada:
— Você não sente vergonha?!
Ludmila Vassilyevna levantou a cabeça. Diante dela estava uma mulher de uns quarenta anos, de jeans e jaqueta azul. Seus olhos estavam cheios de reprovação.
— Vocês estão lucrando com o sofrimento dos outros, parasitas! — continuou. — A polícia não se importa com vocês, e por isso vocês se proliferaram! É preciso tirar os animais de vocês!
Com esforço, Ludmila Vassilyevna levantou a caixa e a entregou à mulher atônita.
— Leve! Pelo amor de Deus! Não posso fazer isso! Queria complementar minha pensão, e acabou que teria que ser assassina para isso!
A raiva nos olhos da mulher rapidamente se dissipou, sendo substituída pela confusão e, aparentemente, pela compaixão.
— Desculpe… Fui dura demais. Esses “caixistas” já me irritaram — são cruéis. É sua primeira vez aqui?
— Sim, a primeira e última — respondeu Ludmila Vassilyevna, olhando de soslaio. — Aceita os filhotes?
— Aceito. Vamos sentar no banco. Eu te ofereço um café, e você me conta o que aconteceu.
Ludmila Vassilyevna assentiu. O café caiu bem — o chá ela deu aos filhotes, e o frio penetrava nos ossos.
— Meu nome é Tanya, eu sou voluntária — apresentou-se a mulher, oferecendo um copo de papel com café quente.
A caixa estava entre elas no banco.
— Ludmila Vassilyevna…
— Então, Ludmila Vassilyevna — continuou Tanya — por que eu fui tão dura com você? Porque conheço essa máfia da caixa. Pior que bêbados e outros marginais. Pelo menos eles apelam para a compaixão. Esses ganham dinheiro com animais. Para eles, filhotes são descartáveis. Não alimentam, não dão água, não tratam. Morreu — paciência, eles pegam outro. Pelo anúncio “para boas mãos”, pegam da rua, às vezes até os próprios donos entregam.
Eu lutei com eles, quantos filhotes já salvei… Nem sempre consegui salvar todos. E de pouco adiantou — aparecem como cogumelos depois da chuva.
Vi você e pensei: “Mais uma!” Vi que você estava cuidando. Pensei que tinha visto certo. Meus nervos não aguentaram, então explodi. Como você conseguiu lidar com eles?
Ludmila Vassilyevna ficou em silêncio. Mas havia algo em Tanya que inspirava confiança.
E contou tudo: sobre a solidão, a perda do emprego e a proposta de Manka.
— Se eu soubesse que para eles os animais eram apenas material, jamais teria aceitado. Talvez eu não seja a melhor pessoa, mas certamente não sou assassina — concluiu ela.
Tanya escutou atentamente e disse:
— No nosso abrigo precisamos de uma faxineira. Não será fácil, e não é só lavar o chão. Ajudar a alimentar, levar alguém para passear — se você puder, claro. Se ficar difícil, vamos apoiar. Temos boas pessoas aqui.
“Provavelmente o destino me enviou Tanya — pensou Ludmila Vassilyevna. — Me protegeu do mal e ainda oferece um trabalho… Será difícil, mas estou acostumada a trabalhar. E ainda terei pessoas boas por perto, e será útil para os sem‑teto.”
— Vamos tentar — sorriu ela.
Três filhotes preto‑ruivos dormiam docemente na caixa, sem suspeitar que suas vidas tinham acabado de mudar.
O destino de Manka também mudou drasticamente. Ludmila Vassilyevna a esperava para falar tudo: ela desapareceu do “trabalho”, entregou os filhotes a estranhos…
Mas Manka não apareceu. Apenas três meses depois, Ludmila Vassilyevna viu a vizinha na entrada do prédio, quando se apressava para o abrigo.
A Manka sombria estava sentada no banco com a perna engessada e, como de costume, bebia da garrafa no saco.
— Oi, Lyudochka! Para onde vai com tanta pressa?
— Para o trabalho. E você, o que fez?
— Deus me castigou! — riu ela. — Estava levando cinco gatinhos para o ponto. Fofos, lindos, pensei que as pessoas pagariam por eles. Mas tropecei na escada da passagem e caí. A caixa voou, os gatinhos correram. Um homem me ajuda, mas não consigo me levantar — perna.
Chamaram a ambulância. E mesmo com dor, eu via pelo canto do olho que uma garota pegou um dos gatinhos, o homem colocou outro debaixo do braço, e a mulher levou os demais. Parece que os recolheu.
Enquanto eu estava no hospital, nosso negócio foi encerrado. A polícia de repente se interessou. Acho que foi um sinal. Preciso procurar outro trabalho. Qual — ainda não sei…
— Preciso, Masha. Mas não algo tão cruel. Já é hora.
Se Manka encontrou outro trabalho, Ludmila Vassilyevna não sabia. Depois daquela conversa, elas nunca mais se falaram. Na primavera, a vizinha desapareceu, e outras pessoas se mudaram para o apartamento.
Diziam coisas diferentes: que vendeu e foi para a aldeia, que congelou de bêbada, e os parentes registraram o apartamento.
Ludmila Vassilyevna se consolava com uma coisa: não importa como o destino de Manka terminou, ela nunca mais voltou às caixas. Ou seja, na cidade havia pelo menos uma caixa horrível a menos.
